quarta-feira, agosto 04, 2010

Rifa-se um coração...
Um coração idealista...
Um coração como poucos... à moda antiga...
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário...

Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos, cultivar ilusões e que nunca desiste de acreditar nas pessoas... Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu..."...não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".

Rifa-se um coração que nunca aprende... que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras...
Esse coração que erra, briga, se expõe...
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões...
Este coração tantas vezes incompreendido, provocado, impulsivo...

Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto...
Um coração indicado apenas para quem quer viver intensamente e contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções...

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário...
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: "O Senhor pode conferir... Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento..."

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se po outro que tenha um pouco mais de juízo...
Um órgão mais fiel ao seu usuário...
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga...

Rifa-se um coração um coração sem raça, sem pedigree...
Um simples coração humano...
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado...


Um verdadeiro sonhador que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta...


[Clarice Lispector]

Nenhum comentário:

Postar um comentário